Viki vivendo na França

Vitória Helena, 21, mineira nascida em Varginha, está realizando o sonho de qualquer jovem: estudar no exterior. A brasileira fez uma entrevista conosco e dividiu um pouco de sua rotina e processo para morar lá fora. Confira!

Foto do Instagram de Viki

Dupla Nacionalidade

“Quando eu tinha sete anos de idade, eu e meu pai fomos morar na Espanha. Nós temos a dupla nacionalidade (brasileira e espanhola) e devo te confessar que isso facilitou e facilita muito o processo de vir estudar fora e morar aqui na Europa.”

“Antes de vir pra Grenoble – FR, eu cursava Fonoaudiologia na UFBA (Universidade Federal da Bahia) mas estava meio perdida quanto ao rumo que eu queria tomar no curso e então aproveitei a oportunidade que minha mãe mora em Grenoble e quis tentar estudar um período na Universidade daqui. Eu amo aprender novas línguas e culturas, então melhorar meu francês e aprender sobre a cultura francesa era algo que eu não poderia deixar de tentar conseguir. Como na França o curso de Fonoaudiologia é feito apenas através de concurso -mais difícil que Enem-, eu me inscrevi para o curso de Sciences du Langage (Ciências da Linguagem) e inicialmente era só para ficar por um ano, no L1 (equivalente a dois semestres). Fui aprovada e vim pra França no final do meu quarto semestre em Fono, no começo de 2018. O que aconteceu foi que no final do meu primeiro semestre aqui eu decidi que a parte de linguística definitivamente não era aquilo que eu queria estudar e fui em busca de outros cursos pra poder transferir. Me deparei com o curso de Lingua Estrangeira Aplicada (LEA), e decidi fazê-lo com o percurso de Inglês-Espanhol-Francês. É uma licença trilíngue e nós podemos estudar uma quarta língua como uma matéria opcional. Estou no final do semestre e até agora está sendo leve, divertido e apaixonante! Decidi ficar aqui e terminar este curso.”

A mudança

“Como eu disse um pouco antes, minha mãe já morava aqui em Grenoble. Quando vim visita-la, acabei conhecendo a Universidade aqui e nasceu um desejo muito grande no meu coração de voltar a morar na Europa, de me aprimorar em outra língua, cultura e etc (além de criar um vínculo mais forte e próximo com minha mãe). Quando recebi o resultado de que eu tinha tudo pra ser aprovada mas faltava a entrevista e o teste de proficiência ( a Universidade exige que tenhamos nível B2 em Francês para poder estudar aqui), eu decidi que terminaria meu semestre no Brasil e que viria antes do começo do semestre Francês para poder melhorar e estudar o idioma e preparar todos os documentos. Então eu fiz uma festinha de despedida na minha casa, encaixotei todas minhas coisas que não foram pra doação (não queria deixar pegando poeira, então esvaziei meu quarto inteiro) e isso, preparei o coração pra viver essa temporada nova e do outro lado do oceano hahaha. Organizar os documentos foi, definitivamente, a PIOR parte!!! Na França eles são extremamente burocráticos, é tudo papel papel papel. E é um setor diferente pra cada coisa mas as vezes você precisa ter um documento pra conseguir outro, então é meio que um jogo de fases. Você vai conseguindo um por um e avançando no jogo.”

A Universidade

“Estudo na ‘Université Grenoble Alpes’ e curso “Langues Étrangères Apliqués- Anglais/Espagnol” . Eu amo estudar aqui! É muito puxado, mas ao mesmo tempo é muito leve. Existem vários programas de bolsas (eu sou bolsista, por exemplo), programas de intercâmbio (posso me inscrever pra fazer intercambio dentro do meu intercambio), ajudas pra conseguir trabalhos e estágios, autoescola universitária, hospital universitário, restaurantes universitários (o famoso RU) de qualidade e os estudantes que vem de fora podem morar nos apartamentos universitários (são muito concorridos entre estrangeiros e os próprios franceses, mas normalmente as pessoas conseguem). O que eu não gosto é que é tudo muito burocrático e pra resolver problemas com a secretaria é praticamente impossível (essa é a minha experiência). Fora as burocracias com papelada, viver aqui e estudar aqui é muito melhor do que no Brasil, pois o que eu sinto de diferença é que lá na UFBA eu sobrevivia e aqui eu realmente vivo. A Universidade no Brasil suga até nossa alma, a gente se alimenta mal, os transportes públicos são caóticos e quando você chega em casa chega a ter a duvida de se come ou se toma banho pois precisa ir dormir logo pra conseguir acordar cedo no dia seguinte.”

Desafios

“No meu Instagram eu sempre falo curiosidades de intercâmbio e dou dicas de por onde começar a pesquisar e tudo mais. Meu destino foi ligado á minha mãe e onde ela morava pois meus pais não teriam condições de me bancar em outra cidade até eu conseguir bolsa ou emprego. Mas se eles tivessem, o primeiro passo é decidir o país pra onde você quer ir e depois a cidade. Na França o governo ajuda bastante os estrangeiros (legalizados, claro) e isso é um ponto bom pra você que quer estudar fora mas precisa de ajuda. Não são todos os países que te ajudam financeiramente e você precisa ver todos os riscos que pode ter antes de decidir sair do seu país de origem, afinal ninguém quer passar frio ou fome, né? No meu caso, a mudança só trouxe benefícios! Sou muito mais feliz aqui do que eu era antes e inclusive conheci o amor da minha vida no transporte público!! França, o país do amor, sabem como é! (risos) Eu faria tudo de novo e passaria por todos os perrengues de novo!”

Poliglota

Ao acompanhar o perfil de Viki (pelo instagram, vikihelena, compartilha suas experiências ao estudar lá fora) notamos que a brasileira já fala mais de 2 idiomas! Ficamos curiosos: com apenas 21 anos, como consegue?

“Amo quando as pessoas me stalkeiam! (risos) (inclusive, vocês estão convidados a me stalkear! Meu insta é : @Vikihelena). Sim!!! Sou poliglota! Ás vezes nem eu mesma acredito, mas é incrível. Falo quatro línguas e estou fazendo aulas de mais uma. Minha língua materna é o português, depois eu aprendi espanhol, francês, inglês e agora estou aprendendo italiano. Sou fluente nas três primeiras (PT, ES, FR), nível avançado no inglês e iniciante em italiano. O espanhol eu aprendi com meu avô (ele é espanhol) e depois quando fui morar na Espanha. O Francês eu aprendi quando passei um mês na França em 2016 e depois comecei a fazer aulas de francês no Brasil (no programa Profici da faculdade), o Inglês a gente aprende por osmose e por necessidade, né? Mas fiquei boa mesmo depois que comecei a namorar com meu namorado e ele começou a me ajudar (ele é Australiano). Conversar com nativos ajuda MUUUITO com nosso processo de aprendizagem e pronúncia. O italiano eu comecei a fazer aula pois quando fui na Itália eu percebi que eu entendia muita coisa (quase tudo) daquilo que eu ouvi e li por lá, então nas minhas aulas eu percebi que tem muitos elementos de espanhol e francês que me ajudam e facilitam minha aptidão na língua. Não sei se vou parar nessas 5 línguas, mas o que eu sinto é que é extremamente útil você viajar e saber se comunicar no idioma local. Tentei aprender Holandês (fiz aula por um semestre) mas foi completamente desastroso! Então vou aprendendo por aquilo que é prazeroso pra mim (tenho uma tendência a aceitar melhor os idiomas derivados do Latim).”

Outras experiências

Perguntamos se Viki já havia visitado outros países e como foi sua experiência:

“Sim!!! Morar na Europa nos facilita o ir e vir a outros países, principalmente os que fazem fronteira com o que já estamos. Se você ficar atento nas promoções, pode conseguir passagens de 20,00€ ida e volta. Aqui na Europa eu já estive em : Portugal, Espanha, Itália, Suíça, Inglaterra, País de Gales e claro, França.”

O preferido

“Até agora, Inglaterra !! A arquitetura e estilo de vida são diferentes e encantadores! Bem coisa de filme mesmo. Além do mais, o Reino Unido sempre fez parte dos destinos dos meus sonhos.”

O menos preferido

“Não tem nenhum que eu não tenha gostado, mas acredito que o que está no final da lista é a Suíça pois não achei que de fato seja turístico. Deve ser ótimo para morar, mas onde fui não é interessante para turistar.”

A parte mais difícil

“Foi -e está sendo- muito difícil cortar o convívio com meus amigos. Eles são como família pra mim. Porém, como nos agarramos na ideia de que eu ficaria só um ano, soubemos lidar da forma menos dramática possível. Mas acho que o pior momento foi aquela despedida no aeroporto, é a imagem que a gente guarda na cabeça, sabe? O ultimo abraço, o choro de felicidade mas triste pela saudade…. Me corta o coração toda vez que lembro da minha irmã chorando porque eu estava indo “embora”. Aff é horrível. Odeio despedidas. O que mais sinto falta são deles, meus amigos, meu pai, minha irmã…. A gente descobre com a distância que algumas pessoas são muito importantes e outras nem fazem tanta diferença assim. Tem o lado bom de estreitar laços. Ah, sinto MUITA falta da comida também, Jesus amado!!! Não tem comida melhor do que no Brasil não!. Você pode ir comer pasta na Italia, Croissaint na França e Paella na Espanha, mas não tem nada que se compara com o bom arroz, feijão, bife e batata frita (risos). Quando eu for pro Brasil tenho certeza que engordarei uns 5kgno mínimo (tenho até uma lista salva nas notas do celular com coisas que eu TENHO que comer e beber quando eu for; ex: coxinha, açaí, pão de queijo, doce de leite, guaraná, suco de caju, etc).”

E depois dos estudos?

“Então, como eu tinha explicado, o plano inicial era vir e ficar só um ano mas como eu mudei de curso aqui, eu acabei me encontrando na nova profissão que quero seguir. Por causa disso, ficarei para terminar minha formação aqui. Eu sempre quis trabalhar viajando, em outros países e a Fonoaudiologia não me permitiria isso caso eu não fosse uma profissional renomeada. Já no meu curso atual, eu posso fazê-lo assim que a faculdade terminar. Volto para o Brasil apenas de férias.”

Dicas

Pedimos para que Viki dissesse algumas palavras que pudessem inspirar jovens que tem o mesmo sonho que a jovem brasileira: viajar e estudar fora. Ela não economizou na inspiração:

” NUNCA DESISTA DOS SEUS SONHOS, VAI DAR TUDO CERTO E VOCÊ VAI CONSEGUIR!!!!!! Eu sou sim sortuda (e abençoada) por ter a nacionalidade e por minha mãe morar aqui, se não fosse isso eu teria sofrido muito mais pra conseguir vir estudar aqui, mas não é impossível. Quem me vê nem imagina como minha vida foi cheia de limitações e “sofrências”. Eu estudei em escola pública, passei na Universidade Federal como COTISTA, tinha dia que eu nem tinha dinheiro pra colocar no cartão de ônibus. As vezes meu pai só tinha 10 reais pra me dar (e graças a Deus que ele tinha), eu pedia carona pro motorista do ônibus, carregava 8 reais no cartão de passagem e usava os outros 2 reais pra comprar o salgadinho lá na estação da Lapa que ia ser meu lanche da faculdade ou pra juntar com o que eu já tinha e pagar o almoço no famigerado (e falecido) Restaurante Universitário, onde tinha o bandejão (e no feijão tinha mais bicabornato do que grãos). E eu lembro disso com alegria, pois Deus nunca deixou me faltar nada. Eu estudei pra passar no Enem usando os recursos que eu tinha (nunca fiz cursinho), lá na faculdade me inscrevi pra concorrer às vagas das aulas de francês e durante os semestres eu me esforçava como podia pra ter boas notas. Foi graças à isso que eu fui aceita na universidade daqui. A famosa meritocracia. Se não fosse meu esforço acadêmico, eu não seria aceita mesmo tendo nacionalidade europeia e minha mãe sendo residente na cidade. Então minha dica pra quem está lendo e nutre o sonho de estudar no exterior mas pensa que é algo inalcançável é: se esforce! Corra atrás! Plante e você colherá. Não existe esforço que seja em vão, mas se faz o mínimo para alavancar sua vida acadêmica, então seu retorno será mínimo também. Existem muitos programas estudantis que dão bolsa, programas como o ERASMUS que tem convênio com varias universidades e que fazem processos seletivos para intercâmbio, programas de pesquisa científica aliados a outros países…. Enfim. Não é porque o Ciências sem Fronteiras acabou que os programas para estudantes acabaram. É só mais difícil e concorrido, mas não impossível.”

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