O que ninguém te conta sobre morar fora

Sair do seu país de origem, seja por qual motivo for, gera sempre um friozinho na barriga, ansiedade e também muita especulação, principalmente de quem assiste a tudo de fora.

1- Não é só coisa de quem tem (muito) dinheiro

Ninguém muda de país do dia para a noite. Corrijo: ninguém, em condições normais de pressão e temperatura, gente como a gente, como eu, como você, muda de país do dia para a noite. Primeiro porque existe uma série de questões burocráticas: passaporte dentro da validade, visto, onde morar, escola para a as crianças. Planejar tudo e mais alguma coisa é certamente uma preocupação (e uma necessidade) de quem vai partir em busca de novos horizontes.

Segundo que 87,39% das pessoas não está nadando em dinheiro e esse também é outro fator importante no processo morar fora. Além dos gastos prévios com passagens, por exemplo, é fundamental ter uma “almofada financeira” para os primeiros meses. É preciso tempo e alguns sacrifícios para reunir essa quantia com o olho no futuro.

2- Morar fora é diferente de fazer intercâmbio

Veja bem, passar seis meses, um ano em um país, com data certa para voltar, não tem nada a ver com ir de mala e cuia. E a diferença não está apenas no tempo, mas em todos os outros aspectos.

Em um intercâmbio, você provavelmente tem uma bolsa ou os custos assegurados pelos pais, arranjar um emprego não estará no topo da sua lista de prioridades. Todos os dias serão únicos, a convivência com outros estudantes será uma experiência enriquecedora. Em suma, é incrível, que te faz crescer também, mas continua a ser bem diferente de morar de vez.

Quando você vai, sem expectativa de volta, a rotina acaba por chegar mais cedo ou mais tarde. São as contas para pagar, o horário de trabalho que precisa ser cumprido, a ida ao supermercado que deixa de ser aquela novidade (e passa a ser uma chatice, convenhamos), as saídas noturnas deixam de ser tão frequentes. Por isso, se você fez intercâmbio em uma cidade e decidiu morar lá depois, é bem provável que tenha visões diferentes sobre a mesma.

3- Talvez você não viaje tanto quanto achou que viajaria

Pois é. Um pensamento muito comum de quem muda para algum país da Europa, principalmente, é de que vai ser uma viagem atrás da outra. E olha, pode não ser bem assim. É certo que existem companhia aéreas super baratas, com preços bastante acessíveis se compararmos com a realidade do Brasil, mas sabe aquela coisa que falei ali no item anterior? A rotina? Vale aqui também.

Você vai precisar se organizar, escolher o que é prioridade. Pode ser que falte tempo, pode ser que falte dinheiro mesmo, afinal, a passagem é barata, mas existem todos os outros custos associados. Paciência é fundamental, especialmente nos primeiros meses depois da sua chegada.

4- O seu extenso currículo e/ou a sua dupla cidadania podem não valer quase nada

Sim, dependendo do país para onde você vai, essa é a realidade. Em termos burocráticos, a cidadania é uma mão na roda, de fato. Aos olhos da lei, você é um cidadão local, com direitos assegurados inclusos, e pronto. No entanto, e para além dos documentos, continua sendo estrangeiro, o que pode representar um entrave desde alugar uma casa até conseguir um emprego.

E por falar em emprego… Aqueles anos de experiência, todas aquelas habilitações e os cursos extras podem não impressionar tanto assim os recrutadores como você gostaria. Antes de ir, investigue como anda o mercado de trabalho para a sua área, se são necessárias equivalências. Enquanto isso, esteja aberto a atuar também em outros setores. Eles podem ser fundamentais para que você faça contatos e networking é uma mais valia em qualquer lugar do mundo.

5- A adaptação é mais difícil se você só se relacionar com brasileiros

Eu não estou dizendo que você deve fugir a sete pés dos nossos compatriotas, pelo amor de Deus! A questão é que não adianta mudar e continuar na zona de conforto. Não adianta ficar perto apenas do que já é familiar, conhecido. Temos uma tendência a buscar esse refúgio em outros brasileiros porque os iguais se reconhecem.

Porém, se nos sentirmos imediatamente confortáveis, o nosso esforço para ir além é menor ou mesmo inexistente. Continuamos a ver aquele lugar apenas através dos olhos de outros estrangeiros e isso nem sempre é vantajoso. Não entendemos certas tradições, certos hábitos, certas expressões. Fica mais difícil mergulhar na sua nova cidade e realidade.

Rompa essa bolha, converse mais com os locais. Eu sei que em alguns lugares eles são mais retraídos e parece ser uma missão impossível fazer amizade, mas não se acomode.

6- Quanto maior a expectativa, maior o tombo

Acho que isso vale para tudo. Quanto mais criamos um cenário espetacular na nossa cabeça, mais chance temos de nos frustrar. Muita gente, ansiosa por deixar para trás toda a crise e insegurança do Brasil, pensa que além das fronteiras é tudo divino e maravilhoso. Só que não.

Mesmo nos países mais incríveis, com uma qualidade de vida inquestionável, as coisas podem dar errado ou não ser bem como você imaginava. A dica é pés no chão e coração aberto.

7- Pode ser a melhor ou a pior coisa que vai acontecer na sua vida

Você pode ter a tranquilidade que sempre sonhou, conseguir um emprego super bacana e ainda assim achar que foi uma má escolha. A adaptação difícil, o preconceito e a saudade pesam. Todas as suas memórias mais felizes parecem ser de um lugar onde você não está mais. A solidão consegue ser esmagadora.

Ou então, mesmo com a adaptação difícil, o preconceito e o peso da saudade, você não se imagina em outro lugar. Os dias não são sempre fáceis, mas tudo parece melhor, mais leve. Era essa a vida que você sempre quis e ainda não sabia.

Os dois cenários são possíveis. Não existe regra nessa coisa de morar fora do Brasil. Não existe felicidade garantida. Ouça experiências, mas não se guie apenas por elas, afinal de contas são mesmo isso, experiências e muito pessoais.

Uma coisa é certa: é preciso coragem. Para partir, para ficar, para voltar.

 

*Matéria originalmente postada por: jafezasmalas

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